3# BRASIL 21.5.14

     3#1 A CHANTAGEM FUNCIONOU
     3#2 SEM MEDO DE APELAR
3#3 O RISCO DE PISAR NA BOLA
     3#4 MILAGRE DOS PEIXES - EXPEDIO VEJA
     3#5 CRIMINOSOS EM REDE

3#1 A CHANTAGEM FUNCIONOU
Ex-chefe do escritrio da Presidncia da Repblica tentou envolver a presidente Dilma e dois ministros do governo em escndalo de corrupo. Dizendo-se abandonada, ela queria ajuda  e conseguiu.
ROBSON BONIN

     A discrio nunca foi uma caracterstica da personalidade da ex-chefe do gabinete da Presidncia da Repblica em So Paulo Rosemary Noronha. Quando servia ao ex-presidente Lula em Braslia, ela era temida. Em nome da intimidade com o "chefe'', como s vezes tambm se referia a ele, Rose fazia valer suas vontades mesmo que isso significasse afrontar superiores ou humilhar subordinados. Nos eventos palacianos, a assessora dos cabelos vermelhos e dos vestidos e culos sempre exuberantes colecionou tantos inimigos  a primeira-dama no a suportava  que acabou sendo transferida para So Paulo. Mas  caiu para cima. Encarregada de comandar o gabinete de Lula de 2009 a 2012, Rose viveu dias de soberana e reinou at ser apanhada pela Polcia Federal ajudando uma quadrilha que vendia facilidades no governo. Ela usava a intimidade que tinha com Lula para abrir as portas de gabinetes restritos na Esplanada. Em troca, recebia pequenos agrados, inclusive em dinheiro. Foi demitida, banida do servio pblico e indiciada por crimes de formao de quadrilha e corrupo. Um ano e meio aps esse turbilho de desgraas, no entanto, a fase ruim parece ter ficado no passado. Para que isso acontecesse, porm, Rosemary chegou ao extremo de ameaar envolver o governo no escndalo. 
     Em 2013, no auge das investigaes, quando ainda lutava para provar sua inocncia, a ex-secretria Rosemary procurou ajuda entre os antigos companheiros do PT  inclusive Lula, o mais ntimo deles. Desempregada, precisando de dinheiro para pagar bons advogados e com medo da priso, ela desconfiou que seria abandonada. Lula no atendia suas ligaes. O ex-ministro Jos Dirceu, s vsperas da fase final do julgamento do mensalo, estava empenhado em salvar a prpria pele e disse que no podia fazer nada. No Palcio do Planalto, a ordem era aprofundar as investigaes. Em busca de amparo, Rose concluiu que a nica maneira de chamar a ateno dos antigos parceiros era ameaar envolver figuras importantes do governo no escndalo. Mensagens de celular trocadas pela ex-secretria com pessoas prximas mostram como foi tramada a reao. Magoada com o PT por ter permitido que a Casa Civil aprofundasse as investigaes sobre suas traficncias, Rose destila dio contra a ento ministra Gleisi Hoffmann. Em uma conversa com um amigo, em abril do ano passado, desabafa: "To chamando a ministra da Casa Civil de Judas!!! Ela bem que merece!!!". O interlocutor assente: "Ela vazou a porcaria toda. Vamos em frente". Rose acreditava que o prprio Palcio do Planalto estava por trs das revelaes sobre o desfecho da sindicncia  "a porcaria toda"  que apontava, entre outras irregularidades, o seu enriquecimento ilcito no cargo. 
     Com o fundo do poo cada vez mais prximo, Rosemary decidiu arrastar para dentro do escndalo figuras centrais do Planalto e, se possvel, a prpria presidente Dilma Rousseff. A estratgia consistia em constranger os antigos colegas de governo pressionando-os a depor no processo que tramitava na Controladoria-Geral da Unio. ''Quero colocar o Beto e a Erenice Guerra", diz Rose em uma mensagem. "Voc quer estremecer o cho deles?", questiona o interlocutor. "Sim", confirma Rose. "Porque vai bombar. Gilberto Carvalho tambm?", indaga. "O.k.", devolve ela. As autoridades que deveriam "estremecer" no foram escolhidas por acaso. Atual chefe de gabinete da presidente Dilma Rousseff, Beto Vasconcelos era na ocasio o nmero 2 da Casa Civil. Ao lado da ex-ministra Erenice Guerra, ele servira a Dilma no Planalto durante anos. Rose os conhecia como a palma da mo e sabia que eles tinham plena conscincia do seu temperamento explosivo. A concluso da conversa no celular, resumida pelo interlocutor, revela as reais intenes da ex-secretria: "Vai rolar muito stress... Vo bater na porta da Dilma. Vo ficar assustados". 
     O plano embutia um segundo objetivo. Rosemary tambm queria se reaproximar de um ex-amigo em especial. Ao tentar "estremecer" o cho de Gilberto Carvalho, o ministro da Secretaria-Geral da Presidncia e homem de confiana de Lula, Rose tinha um propsito bem especfico. Ela queria restabelecer as suas ligaes com "Deus", como a ex-secretria costuma se referir ao ex-presidente Lula. Em outra troca de mensagens de celular, um interlocutor diz a Rose que, com a indicao das testemunhas  Gilberto Carvalho, Beto Vasconcelos e Erenice Guerra  no processo da CGU, "o momento  oportuno para aproximao com Deus...". Mas a ex-protegida de Lula se mostra ctica e insatisfeita. "Vai ser difcil. Ele est com muitas viagens. No posso depender dele", diz Rose. No se sabe exatamente o que aconteceu a partir da, mas a estratgia funcionou. Um dos homens mais prximos a "Deus", Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, cuidou pessoalmente de algumas necessidades mais imediatas da famlia de Rosemary durante o processo. Alm de conseguir ajuda para bancar um exrcito de quase quarenta juristas das melhores e mais caras bancas de advocacia do pas, a ex-secretria reformou a cobertura onde  mora em So Paulo e conseguiu concretizar o antigo projeto de ingressar no mundo dos negcios. 
     Rosemary comprou uma franquia da rede de escolas de ingls Red Balloon. Para evitar problemas com a ficha na polcia, o negcio foi colocado no nome das filhas Meline e Mirelle e do ex-marido Jos Cludio Noronha. A estratgia para despistar as autoridades daria certo no fosse por um fato. A policia j havia apreendido em 2012, na casa de Rose, todo o planejamento para aquisio da franquia. Os documentos mostravam que o investimento ficaria a cargo da quadrilha que vendia influncia no governo. Na poca, a instalao da escola foi orada em 690.000 reais  padro semelhante aos valores praticados atualmente no mercado , dinheiro que Rosemary e seus familiares no possuam. Como, ento, a famlia que informava ter um patrimnio modesto conseguiu reunir os recursos? Procurada por VEJA, Meline Torres, responsvel pela administrao da escola, informou que todos os investimentos foram realizados a partir de "economias". "Eu trabalhei muito durante a minha vida (Meline tem 29 anos). Trabalho desde os 18 anos com registro em carteira e tenho poupana. Meu pai tambm est me ajudando com recursos dele, alis, do trabalho de uma vida", explicou. Rosemary no quis se pronunciar. 


3#2 SEM MEDO DE APELAR
A nova propaganda do PT mira um alvo certeiro  a nova classe mdia  ao insinuar que a vitria da oposio levar  perda da prosperidade.

PIETER ZALIS

     O que o caro eleitor prefere? Dar aos filhos um pedao de po seco ou um sorvetinho? Peregrinar pela estrada carregando lata d'gua na cabea ou passear com a famlia de carro novo? Vagar desempregado e maltrapilho por ai ou sair para trabalhar todo na estica? Com questes como essas, o PT levou ao ar seu primeiro programa partidrio deste ano em rede nacional, na semana passada. A pea mostra imagens de famlias felizes subitamente confrontadas com cenas do seu passado de pobreza, para as quais olham aterrorizadas. Ao fundo, um locutor alerta: "No podemos deixar que os fantasmas do passado voltem e levem tudo o que conseguimos". Ao no ter medo de subestimar a inteligncia do eleitor, o PT produziu uma mensagem clara, impactante e com alto potencial de eficcia, na opinio de especialistas. " um discurso emotivo e de  compreenso imediata para as classes que formam o bruto dos votos de Dilma: gente que tem medo de perder o que acabou de conquistar", diz o professor Adolpho Queiroz, presidente de honra da Sociedade de Estudiosos de Marketing Poltico do Brasil. 
     O discurso do medo, que o PT adota agora,  uma consequncia direta da queda da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas. H um ano, sua reeleio era considerada uma barbada. Com o governo popular e a estabilidade na economia, a petista liderava com folga a disputa. Com as manifestaes, a insatisfao com a Copa e a alta da inflao, os adversrios cresceram e ela recuou. Acuado, sem novas conquistas para mostrar nem esperanas a vender, o PT apelou. O filme  um sintoma de que o temor da derrota se instalou no partido. 
     A estratgia partiu do marqueteiro Joo Santana. Ele comeou produzindo filmetes de um minuto que foram testados em grupos de pesquisa. A aprovao foi macia, em especial entre a chamada "nova classe mdia", o grupo retratado na propaganda. O marqueteiro, ento, fez um programa de dez minutos, na mesma linha. Com o material filmado, testado e aprovado nos grupos de opinio, compareceu diante de Dilma e do comando da sua campanha. O ex-presidente Lula gostou do comercial de imediato. Dilma ficou em dvida se o tom no era muito sombrio. Preferia uma propaganda mais "para cima". Acabou convencida de que a estratgia at o incio da campanha deve ser inocular o medo da "volta ao passado" (rtulo que o PT tentar colar no candidato do PSDB, Acio Neves) ou do "salto no escuro" (leia-se Eduardo Campos, PSB), para s depois partir para as propostas. 
     A ttica do PT no  nova. A primeira vez em que "a esperana venceu o medo" foi na campanha presidencial americana de 1964. Nela, o democrata Lyndon Johnson enfrentou o republicano e belicoso senador Barry Goldwater, defensor de medidas impopulares. Em uma insero que virou referncia em marketing poltico, a campanha de Johnson intercalou a cena de uma menina contando ptalas de flores com uma exploso de bomba, enquanto o narrador afirmava: "Devemos nos amar uns aos outros. Ou morreremos. Vote Johnson para presidente". A ideia de que o republicano representava um risco para uma soluo pacfica da Guerra Fria, num tempo em que a memria da II Guerra era vvida e o atoleiro do Vietn comeava a se aprofundar, foi fundamental para a vitria do democrata. 
     No Brasil, na ltima vez em que a estratgia do medo foi utilizada, o alvo foi justamente o PT. Em 2002, o PSDB levou ao ar um filme em que a atriz Regina Duarte dizia temer a vitria de Lula, porque ela representava o risco de o pas "perder toda a estabilidade que foi conquistada" com FHC. Lula e o PT acusaram os tucanos de "terrorismo eleitoral" e tentaram impedir a propaganda na Justia. Agora, emulam o adversrio. Os fantasmas do PSDB eram bem mais reais do que os de agora. Mas, para o PT, isso no importa. Basta que assustem. 


3#3 O RISCO DE PISAR NA BOLA
De cobiada vitrine eleitoral, a Copa do Mundo virou estorvo e motivo de preocupao para os candidatos  Presidncia da Repblica, que pretendem manter uma distncia estratgica dos campos de futebol.
ADRIANO CEOLIN

     Quando a Fifa escolheu o Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014, o ento presidente Lula festejou como se tivesse marcado um gol de placa. A escolha reforava mantras que ele vivia a repetir, como "o povo voltou a ter orgulho de ser brasileiro", e a cantilena de que, sob sua batuta, o pas finalmente obtinha reconhecimento internacional e ascendia ao panteo do mundo desenvolvido. Estava claro para Lula: a Copa do Mundo e a Olimpada de 2016 seriam usadas como peas de propaganda pelo PT nas eleies. Foi assim em 2010, quando Dilma Rousseff venceu a corrida presidencial. Mas no ser assim neste ano. Candidata  reeleio, Dilma no tentar pegar carona no evento esportivo com a maior audincia do planeta. Uma mudana radical mas compreensvel: entre o otimismo do criador e o distanciamento forado da criatura, houve manifestaes populares contra os gastos pblicos com a Copa, denncias de superfaturamento em obras, alm,  claro, da vaia monumental que a presidente ouviu, no ano passado, na abertura da Copa das Confederaes. Pas do futebol, o Brasil jogar em casa, mas Dilma, pelo menos durante o campeonato, no ter o apoio da torcida, assim como seus rivais Acio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). 
     "A minha impresso  que, desde 1970, no acontecia uma tenso poltica em torno da Copa como agora. Naquela poca, havia uma discusso sobre se torcer para a seleo ajudava a ditadura militar. Por isso,  prudente, de fato, (o candidato) no aparecer", diz Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha. Escaldada pela vaia tomada no Estdio Man Garrincha, em junho de 2013, no auge dos protestos populares, Dilma no discursar na abertura da Copa, em 12 de junho. Ser a segunda vez desde 1994 que o chefe de Estado do pas anfitrio abdicar de dar boas-vindas aos torcedores. No Mundial da Frana, em 1998, o ento presidente Jacques Chirac apenas declarou: "Est aberta a Copa do Mundo". Apesar disso, Chirac acompanhou vrios jogos nos estdios, inclusive a partida final, que terminou com a goleada de 3 a 0 da Frana sobre o Brasil. Por ora est definido que Dilma ver os jogos pela televiso. Por uma estratgia de marketing, ela se deixar fotografar ao lado de familiares, especialmente o neto, em imagens a ser divulgadas na imprensa e nas redes sociais. A recluso da presidente foi decidida aps pesquisas qualitativas encomendadas pelo governo.  
     As entrevistas mostraram que os brasileiros querem a classe poltica longe da Copa. Eles tm motivos para isso, inclusive no campo da superstio. Em 1950, o Brasil sediou sua primeira Copa do Mundo e chegou  final como franco favorito. Um dia antes da partida decisiva contra o Uruguai, os trs candidatos a presidente  entre eles Getlio Vargas, que venceu o preo  fizeram questo de posar para fotos com os jogadores, que j eram tratados como campees mundiais. O desfecho da histria pode ser resumido numa palavra mtica: Maracanazzo. A pesquisa encomendada pelo governo traz outro dado preocupante para Dilma. Os entrevistados disseram que, se a Copa der errado, a presidente perder votos. Se der certo, no ganhar, porque no teria feito mais do que sua obrigao. F de futebol e amigo de ex-jogadores como Ronaldo Nazrio, artilheiro e campeo da Copa do Mundo de 2002, o tucano Acio Neves planeja ir a pelo menos uma partida, em Belo Horizonte, seu bero poltico, onde ter a torcida a favor. Acio foi convidado a assistir a jogos em Manaus e Salvador, mas ainda no respondeu se ter coragem de lidar com os eleitores fora de casa. 
     J o socialista Eduardo Campos deu sinais de que manter distncia regulamentar dos jogos. Ele fez questo de publicar numa rede social apoio  deciso do prefeito do Recife, Geraldo Jlio, de cancelar a realizao de uma festa oficial da Fifa, inicialmente orada em 20 milhes de reais. Os gastos pblicos com a Copa, como se sabe, se tornaram dnamos das manifestaes populares. " motivo de orgulho para o PSB ter nos seus quadros um prefeito que sabe avaliar cuidadosamente a forma de gerir as contas pblicas e pensar no bem da cidade", escreveu Campos. Integrantes da cpula socialista pretendem orient-lo a no ir a estdios. Diz o publicitrio Fernando Barros, dono de uma agncia que presta servios  Presidncia: "O nico poltico que conseguiu faturar com futebol foi o presidente Emlio Medici (1969-1974), com seu radinho de pilha no Maracan". Quando o general Medici comandava o pas, o Brasil conquistou o tricampeonato mundial, no Mxico. Internamente, vivia o auge de uma represso militar em que manifestaes democrticas eram sufocadas. Entre elas, o voto e a vaia. 


3#4 MILAGRE DOS PEIXES - EXPEDIO VEJA
Em Sorriso (MT), terra da soja, a deciso de diversificar investimentos criou um polo piscicultor que cresceu extraordinariamente. E agora se prepara para alar novos voos.
CECLIA RITTO E TATIANA GIANINI

     Ela j era a terra da soja. Agora, est prestes a virar tambm a terra do tambaqui  e do pintado e do pirarucu. A cidade de Sorriso, em Mato Grosso, passou a investir na piscicultura no comeo dos anos 2000 e, em menos de uma dcada, foi recompensada pelo milagre da multiplicao. Hoje, responde por 10.000 toneladas de pescado por ano  um quinto da produo de Rondnia, o maior criador de peixes em viveiro do pas. A cidade  a maior produtora individual de soja do mundo (colhe 2 milhes de toneladas do gro por ano) e muitos de seus novos piscicultores so tambm fazendeiros. Acostumados aos altos custos de escoamento da safra, toda transportada por rodovias e sujeita a perdas de at 40%, eles enxergaram na nova atividade uma forma segura de diversificar os investimentos. Ganha-se com 1 hectare de criao de peixes o mesmo que em 100 hectares de soja. 
     A produtividade , em parte, resultado de uma parceria com a Embrapa. Por meio da coleta e anlise do DNA de 5000 peixes da regio amaznica, o instituto conseguiu melhorar a qualidade gentica da produo de modo a obter resultados mais eficientes na engorda. Hoje, piscicultores de Sorriso so capazes de fechar um ciclo de cultivo em nove meses, um a menos do que no restante do pas. A maior parte da mercadoria ainda vai para regies prximas. Mas, neste ms, a cidade inaugurar o maior frigorfico de peixes em viveiro do Brasil  ser o primeiro passo para o inicio das exportaes. 
     Sorriso foi a ltima parada da Expedio VEIA na semana passada. O nibus que percorre o pas para mostrar exemplos de um Brasil empreendedor, que supera adversidades e compete com os melhores do mundo viajou nas duas primeiras semanas 4200 quilmetros. Na ltima semana, foram 2500 quilmetros desde No-Me-Toque. A cidade de 16.000 habitantes no Rio Grande do Sul  o exemplo mais bem-acabado do esprito da expedio. 
     No-Me-Toque conquistou seu lugar no mapa graas  agricultura de preciso. Sem dispor das vastas reas do Centro-Oeste brasileiro, como no caso de Sorriso, a regio tinha necessidade de aumentar sua produtividade para manter-se competitiva. Para isso, precisava de equipamentos de ponta que, alm do alto custo de compra e manuteno, chegavam com manuais de operao indecifrveis para a maior parte dos agricultores locais. "Quando um computador de bordo quebrava, por exemplo, era um deus nos acuda. Com a mquina parada, as lagartas destruam a plantao", conta Gilson Trennepohl, diretor-presidente da Stara, a pioneira na produo do equipamento nacional. Em 2007, a companhia comprou a australiana Computronics e passou a fabricar mquinas no Brasil, com a ajuda de uma equipe de engenheiros da computao e mecatrnicos. Seu faturamento saltou de 60 milhes de reais, em 2006, para 1 bilho de reais. Hoje, ela exporta para quinze pases. Vm da indstria 71% da arrecadao de impostos de No-Me-Toque, que h quinze anos tinha 60% de sua base na agricultura. 
     Essa transformao de municpio rural em polo industrial se repetiu na terceira cidade visitada entre No-Me-Toque e Sorriso: Trs Lagoas (MS). Desde 2009, quando atraiu a instalao da maior fbrica de celulose do mundo graas ao seu investimento em infraestrutura, a cidade se modificou. J se instalaram por l sessenta fbricas, que fizeram as exportaes saltar de 7,6 milhes de dlares para 1,1 bilho de dlares em uma dcada. A Expedio VEJA percorrer o pas por outras duas semanas. Neste momento, ela est na Regio Centro-Oeste e segue em direo ao Nordeste. 


3#5 CRIMINOSOS EM REDE
Identificado no interior de So Paulo o segundo homem que ameaou de morte o presidente do Supremo Tribunal Federal.  mais um militante virtual do PT.

     Por mais que a emoo s vezes se sobreponha  razo, ameaar um ser humano de morte no  e no pode ser tratado como um comportamento compreensvel. Desde que decretou a priso dos mensaleiros, no ano passado, o ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal,  vtima de agresses virtuais. Fazia trs meses que a Polcia Federal caava dois desses criminosos que se escondiam no anonimato da internet. Um deles, que pregava a morte do ministro com um tiro na cabea, foi identificado. Integrante da Comisso de tica do PT do Rio Grande do Norte, Srvolo de Oliveira e Silva confirmou ser o autor da ameaa, mas negou a inteno de levar o plano adiante. Na semana passada, descobriu-se a identidade de outro agressor. Ele se apresentava como "Antonio Granado" e postou uma mensagem na qual dizia que Joaquim Barbosa  "um monstro e como monstro deve ser tratado". O nome completo desse senhor  Dimas Antonio Granado de Pdua. Ele tem 56 anos de idade,  filiado ao PT e se diz um ativista de direitos humanos em Santa Brbara d'Oeste, no interior de So Paulo. 
     "s vezes, eu escrevo por impulso, me exponho, mas o que posso fazer?", disse Dimas, indagado sobre o contedo criminoso das mensagens. Mas ele logo faz uma ressalva: "No fui eu quem escreveu essa mensagem contra o monstro do Joaquim Barbosa". Dimas tambm no tem ideia de quem poderia ter invadido sua pgina. Trado pelo prprio vocabulrio, nem precisa. Uma rpida busca nas postagens do "ativista" revela que ameaar de morte desafetos  uma prtica corriqueira. "Tentem derrubar Dilma e se preparem para morrer; porque ns vamos peg-los. E, se sentirem que esto sendo ameaados, timo, porque  uma ameaa mesmo", escreveu ele no fim de 2011, antes de eclodirem as manifestaes de rua. O perfil agressivo rendeu a Dimas quase 5000 amigos na internet, incluindo polticos conhecidos, como o secretrio de Transportes de So Paulo, Jilmar Tatto, e o ex-assessor na Casa Civil Marcelo Sereno, amigo e ex-brao-direito do mensaleiro Jos Dirceu. A Polcia Federal deve indiciar Srvolo e Dimas por crime de ameaa, que pode render at seis meses de cadeia para cada um. Os dois tambm so amigos virtuais. 
HUGO MARQUES


